A atualidade da Europa e do Mundo colocou a nu uma série de novas formas de exclusão que até agora estavam atiradas para segundo plano. Se por um lado a questão da integração das comunidades migrantes ganhou cada vez mais destaque, a geografia das ultraperiferias e a desertificação do interior de países como Portugal e Espanha gerou constrangimentos, desigualdades, novos focos de pobreza e exclusão no acesso a oportunidades de realização social e cultural das suas populações. Neste processo os jovens foram particularmente prejudicados. As novas gerações foram obrigadas a migrar do Interior para o Litoral, de ultraperiferias como as regiões autónomas atlânticas e mediterrânicas (ex.: Açores e Canárias) para o continente, colocando ao abandono regiões já de si com problemas de demografia, défices sérios de envolvimento social e cultural e com serviços sociais de proximidade muito débeis. De certo modo, esta foi mais uma forma de movimento migratório, que colocou a nu as desigualdades geradas pela geografia. Numa sociedade aberta e defensora da igualdade de oportunidades, não é justo nem razoável um jovem ter menos oportunidades, só porque nasceu numa região do Interior ou Ultraperiférica. Aliada a esta situação, o momento atual mundial é o da proliferação de discursos xenófobos, nacionalistas, sectaristas e, por vezes, de ódio à diferença, colocando-nos de volta a épocas que pensávamos, já terem sido erradicadas da nossa cronologia. Falamos das épocas que antecederam as I e II guerras Mundiais, das vagas de emigração dos anos 60 ou do despoletar da Guerra Fria. O influxo de refugiados do médio oriente representou a maior massa migratória no continente desde a II Guerra Mundial. Os jovens com que trabalhamos não estava, indiferentes a estes acontecimentos. Ainda que o trabalho para a promoção da educação e diálogo intercultural seja diário, a questão dos refugiados desperta muitas reações, muitas delas negativas, junto dos nossos jovens, que tinham sempre demonstrado uma atitude de diálogo e abertura para as causas solidárias. No caso dos refugiados, um pouco reproduzindo o clima europeu, têm demonstrado uma tendência para a recusa, argumentando muitas vezes, que o foco deveria ser nos cidadãos nacionais dos seus respetivos países. Esta questão gerava e gera uma contradição gritante, jovens que foram obrigados a deixar o interior ou zonas ultraperiféricas, devido à falta de oportunidades de formação e realização social, hostilizam jovens migrantes, que de forma diversa, procuram o mesmo que eles. Era com esta realidade com que nos deparávamos no momento de modo concreto. Inclusive, nos núcleos da PASEC dos Açores (São Roque do Pico (Ilha do Pico) e grupos da Camin’Art em Lanzarote (Canárias), a realidade passou por jovens que tinham dificuldade em aceder a oportunidades de emprego e formação de qualidade, e que procuravam o continente como resposta para os seus anseios. Ao mesmo tempo, estes opunham-se à solidariedade com o acolhimento a jovens migrantes de fora da Europa, por medo que estes esgotassem ainda mais o seu já curto campo de oportunidades. O Geo Equity serviu de resposta integrada do ponto de vista da promoção de redes colaborativas com base em dinâmicas de educação não formal de combate à xenofobia, preconceito e falta de solidariedade, para com os jovens migrantes, ao mesmo tempo, em que trabalhamos em projetos comuns, que possibilitaram não só a integração de jovens migrantes, mas a capacitação e envolvimento social dos jovens que habitam nas ultraperiferias e interior nas suas regiões de origem, utilizando os recursos já existentes. Criamos a primeira Rede Europeia Colaborativa de Jovens de Comunidades Migrantes e das Regiões Periféricas. O projeto envolveu 191 jovens de forma direta, na sua maioria jovens com menos oportunidades, oriundos de comunidades migrantes, minorias, jovens NEET e uma parte importante que habita em regiões ditas periféricas. O Geo Equity surgiu como uma resposta direcionada à problemática dos jovens refugiados e jovens que habitavam nas regiões periféricas nos contextos desta parceria. Formamos e relembramos aos jovens envolvidos a história dos seus povos e a sua descendência migrante, a importância do diálogo e educação intercultural, e o combate ao discurso de ódio, ignorância e apatia, face às comunidades migrantes e de refugiados. Ao mesmo tempo, formamos jovens enquanto mediadores comunitários empoderando-os ao nível da animação comunitária, através do Teatro/Jogo Dramático, expressão corporal e Psico/Sociodrama, ao mesmo que trabalhamos a Educação Intercultural como dimensão essencial para as novas sociedades interculturais. Mudamos atitudes, tornamos estes jovens parte da solução, através da criação da Rede alicerçada em Planos Locais de capacitação de Comunidades Migrantes. Foi ainda resultado deste projeto uma brochura de boas- práticas sobre o que os jovens acreditavam ser o papel das ONGs, decisores políticos e dos jovens nas suas comunidades na resolução desta crise global.