O reflexo atual do mundo encaixa-se nos pressupostos da globalização sendo potenciador de diferenças e desigualdades e, como tal, dando origem à emergência de conflitos. O Ser Humano é caracterizado pela sua unidualidade, uma vez que comporta nele uma vertente biológica e outra cultural. É através das suas interações com os outros e com o meio que este adquire uma nova dimensão, a dimensão cultural, pois é na base desta dimensão que o indivíduo evolui num sentido de uma maior complexidade. É por via destas interações e desta dimensão cultural (aquisição de normas, valores, saberes) que o Ser Humano desenvolve a sua essência, única e intransmissível, meio de afirmação pessoal na sociedade. Cada um de nós tem a sua forma de percecionar o mundo e os contextos sociais, o que gera diferentes opiniões. A divergência de opiniões não significa, obrigatoriamente, uma tradução ou condução na/para a violência e/ou à perversão das relações sociais. Pelo contrário, essa mesma divergência pode levar ao crescimento da relação social, tornando-a mais firme. Por essa razão, o conflito pode e deve propiciar desenvolvimento. Face à evolução desmedida da sociedade exige-se uma revisão da abordagem das práticas, de modo a minimizar os fossos causados pela gigante transformação social onde nos vemos atualmente envolvidos. O projeto Methods of Integration and Mediation in Rural Communities surgiu como uma resposta aos desafios da nossa sociedade, procurando proporcionar uma experiência de reflexão e aprendizagem face às relações entre culturas num espaço de acolhimento, cooperação e convivência saudável, possibilitando o estabelecimento de relações positivas assentes numa comunicação acolhedora e inclusiva. Conforme nos refere Jares (1990; 1996; 1999a; 2001), predomina na sociedade atual uma “conceção tradicional de conflito derivada da ideologia tecnocrático-conservadora que o associa a algo negativo, indesejável, sinónimo de violência, disfunção ou patologia e, consequentemente, a algo que é preciso corrigir e, sobretudo evitar (Jares, 2002, p.17)”. (Xesús R. Jares - professor da Universidade de Santiago de Compostela e investigador e autor dos livros Educação para Paz; Educação e Direitos Humanos e Educação e Conflito). É preciso uma nova resposta aos conflitos emergentes, à violência e à indisciplina que consequentemente advém destes movimentos. É necessário firmeza e autoridade para melhorar a convivência, mas também são precisos novos olhos para devolver o olhar àqueles que não tiveram outra direção de forma a melhorarmos um pouco de cada um (Torrego, 2006). (Juan Carlos Torrego - doutor em ciências da educação e diretor de vários projetos no âmbito da mediação) Estamos em presença de uma comunicação marcada pela interferência que é caracterizada como deficiente. Neste sentido, e reconhecendo a urgência de uma comunicação face a face e de proximidade, pretendemos com este projeto criar espaços de crescimento das relações sociais, potencializando a diversidade e abrindo canais de comunicação sustentados pelo diálogo das e com as diferenças. O relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI refere que, “à educação cabe fornecer, de algum modo, os mapas do mundo complexo e constantemente agitado e, ao mesmo tempo, a bússola que permita navegar através dele” (p.89). Desta forma, acreditamos que só através da educação para a convivência conseguiremos dotar os cidadãos de capacidades e habilidades que os ajudarão a compreender quem são, quais os seus valores, interesses e compromissos, ou seja, a educação deve centrar-se na descoberta de si próprio para que, assim, possamos descobrir progressivamente o outro. “Trata-se da descoberta do outro, simultaneamente, de si próprio. Trabalhar o “eu” e o “tu” num contexto “nós”. É um domínio sobre o qual a educação pode fazer toda a diferença” (Pinto da Costa, 2010, p. 3). (Elisabete Pinto da Costa: diretora do Instituto de Mediação da Universidade Lusófona do Porto; docente e investigadora na área da Mediação; docente na área dos Assuntos Europeus) O presente projeto pretendeu despertar a consciência cívica e social dos participantes para a importância da criação de nichos de proximidade com a comunidade, um espaço de encontro do ‘Eu’ com o ‘Nós, um espaço de descoberta. Pretendeu-se criar um espaço de desenvolvimento de competências e habilidades pessoais, comunicacionais e sociais com vista a derrubar os muros de desigualdade que, muitas vezes, nos cercam e afastam do outro. A From Body to Soul desenvolve um trabalho de parceria com o Conselho Municipal de Juventude nas escolas do Concelho, num trabalho de Mediação educativa e cultural. Além disso, promove o desenvolvimento de competências pessoais e sociais em parceria com o CMJ, as associações da cidade e a mediação de grupos, nas mais diversas atividades. Assim sendo, o projeto foi desenhado e estruturado por forma a conferir aos participantes: conhecimento, competências técnicas, habilidades